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Hermes de Paula, o médico seresteiro que guardou a alma de Montes Claros

Filho de tropeiros, ele idealizou a Faculdade de Medicina do Norte de Minas, escreveu sobre rezadeiras e pequi e fundou um grupo de seresta sem tocar instrumento. O nome dele está no coração cultural da cidade.

Hermes de Paula, o médico seresteiro que guardou a alma de Montes Claros

Filho de tropeiros, ele idealizou a Faculdade de Medicina do Norte de Minas, escreveu sobre rezadeiras e pequi e fundou um grupo de seresta sem tocar instrumento. O nome dele está no coração cultural da cidade.


Hermes de Paula tinha 18 anos e o estudo estava por um fio. Foi quando a mãe, dona Joaquina, ganhou um prêmio da loteria mineira. Com aquele dinheiro, o rapaz conseguiu seguir estudando. E Montes Claros ganhou, anos depois, um dos filhos que mais cuidaram dela.

Hermes nasceu em 6 de dezembro de 1909, em Montes Claros, filho dos tropeiros Basílio de Paula Ferreira e Joaquina Mendonça de Paula. Formou-se em Medicina em 1939, na Faculdade Fluminense, em Niterói, e lá foi interno e assistente de Vital Brazil.

Retrato pintado de Hermes de Paula na galeria de homenageados do Centro Cultural. Retrato de Hermes de Paula (acervo do Centro Cultural) / Foto: Prefeitura de Montes Claros

Tem uma passagem dessa época que dá gosto de contar. Ao conhecer o mestre, Hermes disse que estava feliz por conhecê-lo vivo. Tinha lido tanto os trabalhos do mestre que achava que ele era de outro tempo.

De volta para casa, montou o primeiro laboratório de análises clínicas da região. Em 1949, foi diretor-clínico da Santa Casa. E no próprio sítio manteve um serpentário com quase 40 cobras, conveniado ao Instituto Butantan.

Você sabia que a Faculdade de Medicina do Norte de Minas nasceu de um sonho dele? Hermes foi o idealizador da faculdade, que contou com a ajuda de Mário Ribeiro, o primeiro diretor, e de Darcy Ribeiro. A autorização saiu em 1969, e hoje a faculdade faz parte da Unimontes.

Mas o coração de Hermes batia também no compasso da cultura. Ele escreveu Montes Claros, sua história, sua gente, seus costumes, de 1957, e A medicina dos médicos e a outra..., sobre curandeiros e rezadeiras. Escreveu ainda O uso do pequi e do pequizeiro no sertão e o Caderno de Modinhas. Apoiava marujadas e catopês.

E aqui vem a parte mais mineira de todas. Mesmo sem tocar instrumento, Hermes fundou o Grupo de Serestas João Chaves e o dirigiu por 16 anos, tempo em que o grupo gravou 8 LPs. Conta-se que, numa serenata para o presidente Costa e Silva, ele teria conseguido o asfaltamento da BR-135. É o tipo de história que a gente conta na porta de casa, com um sorriso no canto da boca.

Recebeu a Medalha Vital Brazil, em 1965, e a Medalha da Inconfidência, em 1978. Foi o primeiro Doutor Honoris Causa da Faculdade de Medicina, título que recebeu dois dias antes de morrer, em 10 de junho de 1983. O último sonho dele era um Museu do Som e da Imagem de Montes Claros.

Em 22 de maio de 1979, a cidade inaugurou o Centro Cultural Hermes de Paula, que reúne a Galeria Godofredo Guedes, o Teatro Cândido Canela e a Biblioteca Antônio Teixeira de Carvalho. Em maio de 2026, o espaço comemorou 47 anos, já de olho nos 50. Foi lá que aconteceu o Psiu Poético 2026.

O legado que fica com a gente

Cada vez que você entra no Centro Cultural para ver uma peça, uma exposição ou ouvir um poema, está entrando na casa que leva o nome de Hermes. Cada médico formado no Norte de Minas carrega um pouco do sonho dele. E cada seresta que ainda ecoa pelas ruas de Montes Claros lembra o filho de tropeiros que cuidou do corpo e da memória da sua gente.

Foto de capa: Fachada do Centro Cultural Hermes de Paula, na Praça Dr. Chaves, em Montes Claros. Foto: Fábio Marçal / Prefeitura de Montes Claros


Fontes