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Lourdes Barroso, a mulher que encontrou abrigo num vapor do São Francisco e virou carranqueira
Perseguida depois de 1964, ela embarcou no Velho Chico, foi protegida pelo comandante, casou com ele e aprendeu a esculpir as carrancas que contam a história de Pirapora.
Perseguida depois de 1964, ela embarcou no Velho Chico, foi protegida pelo comandante, casou com ele e aprendeu a esculpir as carrancas que contam a história de Pirapora.
Depois do golpe de 1964, uma jovem cantora baiana embarcou num vapor do Rio São Francisco tentando escapar da perseguição. Lá dentro, havia uma pessoa plantada para prendê-la. Quem ficou do lado dela foi o comandante, Francisco Barroso. Ele a protegeu. E os dois acabaram se casando.
Essa mulher era Maria de Lourdes Gonçalves Lopes. O Velho Chico conheceria Lourdes como Lourdes Barroso.
A história começa longe daqui, em Serrinha, na Bahia. Aos 12 anos, Lourdes cantou num circo e ganhou o apelido de "Cigarra Boêmia de Serrinha". Na juventude, cantou em Salvador como Lourdinha Gonçalves e conviveu com grupos de esquerda e com gente como Waldir Pires.
O rio virou casa. Lourdes viveu embarcada, principalmente no Vapor São Francisco, no trecho entre Pirapora e Juazeiro. Segundo o Estado de Minas, eram 1.371 quilômetros navegáveis, em viagens de 8 a 12 dias.
O Vapor Benjamim Guimarães, último dos vapores do Velho Chico, em Pirapora. Foto: Fadbrício da Silva (via Wikimedia Commons), CC BY 3.0
Você sabia que, a bordo, ela era a escrivã de cartas da tripulação? Muitos tripulantes não sabiam ler nem escrever. E pediam a ela para escrever sobre a saudade.
Foi também no rio que Lourdes encontrou a arte das carrancas, aprendendo com o mestre Guarani. Um relato publicado em 2010 conta que, quando a conheceu, Guarani esbravejou que não ia ensinar nada. Ela teria aprendido só de olhar. E aprendeu bem: uma carranca de Lourdes, com 42 centímetros de altura e 65 de diâmetro, está registrada desde 2021 no acervo do Museu de Cultura Popular.
Sobre o comandante, Lourdes disse uma frase que resume uma vida inteira: "Ele era pai, protetor, amante e marido". Francisco Barroso morreu em 1997, aos 86 anos.
Em 2015, Lourdes lançou o livro Diário de bordo: Entre vapores e carrancas, organizado pelo fotógrafo Aparício Mansur. Na época, falou do rio com uma tristeza que todo mineiro ribeirinho entende: "Era um rio alegre, um rio cheio de esperança... Hoje, o Velho Chico é triste".
Cantora, poetisa, escritora e carranqueira, Lourdes juntou na mesma vida a voz da Bahia e a madeira do São Francisco, e fez de Pirapora o porto da sua história.
O legado que fica com a gente
As carrancas de Lourdes seguem olhando para o rio do mesmo jeito que ela olhou: com coragem. As cartas que ela escreveu guardaram a saudade de quem não sabia colocar o que sentia no papel. E a história dessa mulher que fugiu, foi protegida e transformou o medo em arte fica com Pirapora e com todo o Norte de Minas, como prova de que o São Francisco sabe acolher quem precisa.
Foto de capa: Lourdes Barroso em casa, à mesa, com cartas e envelopes. Foto: Aparício Mansur / Divulgação
Fontes
- https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/12/26/interna_gerais,720238/navegante-do-vapor-benjamim-guimaraes-artesa-e-cantora-lanca-livro-co.shtml (Estado de Minas, Luiz Ribeiro, 26/12/2015)
- http://vaporencantado.blogspot.com/2010/02/dona-lurdes-carranqueira-cantora.html (blog Vapor Encantado, 19/02/2010; republica texto do Velhochico.net)
- http://museudeculturapopular.org.br/?p=697 (Museu de Cultura Popular, 29/06/2021)
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