Gastronomia

Tina Pequitina, a professora de Januária que fez do pequi uma farofa famosa

Ela catava pequi em bacia no rancho da família, perdeu a voz da sala de aula e achou no fogão um jeito novo de viver do Cerrado. Hoje a farofa que leva o apelido dela roda o Brasil.

Tina Pequitina, a professora de Januária que fez do pequi uma farofa famosa

Tem gente que se apaixona pelo pequi na primeira mordida. Vicentina Bispo se apaixonou pelo cheiro.

"Aquele cheiro do mato molhado, com o cheiro do pequi de quando eu chegava na roça, ainda está presente em mim o tempo inteiro", contou ela à Gazeta Norte Mineira, em junho deste ano. Quando chegava em casa, arrancava o pequi da casca e punha na panela. O aroma subia e ela ficava encantada.

A Tina, como todo mundo chama, nasceu em Montes Claros, mas a família vem de Januária. Na infância, ela e os irmãos passavam fins de semana, feriados e qualquer folga num pedaço de terra da família no distrito de Pandeiros, a uns 50 quilômetros da cidade, segundo o Funbio. Ali os pequizeiros eram enormes, e o fruto vinha em bacias.

Era tanto pequi que sobrava. "Era usado até para alimentar os animais. Não me conformava em ver que não podíamos aproveitar", lembrou ela ao Funbio, em 2023.

A sala de aula ficou para trás

Tina se formou professora e foi alfabetizadora por muitos anos. O sonho de viver do pequi ficou guardado na gaveta. Até que um problema nas cordas vocais a tirou da sala de aula. O Funbio conta que isso aconteceu quando ela tinha 43 anos.

Para não ficar parada, ela entrou num curso de agroindústria. Num dos trabalhos da turma, o desafio era criar uma receita com algo da região. Tina inventou uma farofa de pequi. O professor se surpreendeu, e ela nunca mais largou o fruto.

A farofa ganhou nome: Pequitina. O apelido veio junto, e hoje ela é a Tina Pequitina. A farofa continua sendo o carro-chefe e, na receita dela, combina com feijão tropeiro, carne de sol e churrasco.

O sonho que tirou os espinhos

Quem já mexeu com caroço de pequi sabe do problema: os espinhos. Tina tinha muita castanha guardada e não sabia como limpar. A solução, ela contou ao ÓSócioBio em 2025, chegou dormindo.

Ela sonhou que peneirava areia no fogo e via fagulhas bonitas caindo. Acordou às três da manhã, pegou uma peneira de arame e passou as castanhas com espinho na chama. Os espinhos soltaram, igualzinho no sonho. O pai acordou, viu a cena e soltou uma brincadeira que ela repete rindo até hoje.

O pai, aliás, aparece em quase toda história dela. Foi ele quem dizia que "uma hora a gente descobre uma forma de fazer alguma coisa" quando ela tinha dó de jogar sobra fora. E foi ele quem improvisou uma engenhoca com uma foice presa numa madeira para quebrar as castanhas.

Uma cozinha que virou laboratório

"Eu faço da minha casa um laboratório", disse Tina à Gazeta Norte Mineira. Da cozinha dela saíram o pequi desidratado (que ela conta ter feito quando ninguém fazia), castanha de pequi cristalizada, conserva, geleia, barrinha de cereal e granola.

A lista de produtos publicada pelo Núcleo do Pequi passa ainda por farofa de buriti, doce e cristalizado de jenipapo, óleo de pequi e pimenta-de-macaco. Tem também uma geleia de maracujá do mato com castanha de pequi que ela batizou, com humor, de Macho do Cerrado. Num concurso de produtos da sociobiodiversidade, a geleia ficou entre as dez primeiras, segundo o relato dela ao ÓSócioBio.

A barrinha nasceu na pandemia, com a família de cobaia. Leva castanha de pequi, baru, farinha de jatobá, melado e mel. Quando a mistura não deu liga numa das tentativas, ela juntou aveia e inventou a granola.

Em evento gastronômico, Tina já cozinhou 40 quilos de arroz com pequi de uma vez, em panelas de seis quilos carregadas por duas pessoas. Ela mesma conta isso, e ri do trabalho que deu.

Do quintal para Brasília

A Pequitina faz parte do Núcleo do Pequi, rede de associações e cooperativas do Norte de Minas. Pelo Funbio, Tina já levou o pequi a uma feira de alimentos na Itália.

Em janeiro de 2025 ela estava em Brasília, na sanção da Lei 15.089/2025, que criou a Política Nacional para o manejo sustentável do pequi e dos demais frutos do Cerrado. O ÓSócioBio a descreve como uma das figuras centrais na articulação dessa lei.

O sonho agora, ela diz, é ver a lei chegar a todo o Cerrado e passar o conhecimento adiante. E repete a frase que virou marca registrada: "pequi é melhor que sushi".

Para quem quiser provar, os produtos aparecem em feiras e eventos, e Tina mantém uma lojinha no terreno de casa, em Januária.

Foto: @pequitinasabores / Instagram

Fontes