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Zé Côco do Riachão, o violeiro do sertão que uma TV alemã chamou de Beethoven
Nascido no Riachão, em Brasília de Minas, ele fazia a própria viola, tocava solo e acompanhamento ao mesmo tempo e só foi gravar perto dos 70 anos. A música dele virou escola para violeiros do Brasil inteiro.
Nascido no Riachão, em Brasília de Minas, ele fazia a própria viola, tocava solo e acompanhamento ao mesmo tempo e só foi gravar perto dos 70 anos. A música dele virou escola para violeiros do Brasil inteiro.
Em 1912, no Riachão, zona rural de Brasília de Minas, na divisa com Mirabela, uma folia de reis ia passando quando um menino nasceu. A mãe entendeu o recado e consagrou o filho aos Santos Reis. Por isso o registro ganhou o "dos Reis": José dos Reis Barbosa dos Santos.
O sertão inteiro conheceria esse menino como Zé Côco do Riachão.
Aos 8 anos, ele já tocava a viola que aprendia a fazer com as próprias mãos. Aos 20, assumiu a pequena fábrica de instrumentos do pai. E a vida de sertanejo pedia de tudo: Zé Côco também foi marceneiro, ferreiro, sapateiro e fazedor de carro de boi. Violeiro, rabequeiro, compositor e luthier, ele carregava a música no mesmo lugar onde carregava o trabalho.
Você sabia que ele tocou em mais de 50 folias de reis? E que, entre os violeiros do São Francisco, existia uma simpatia de passar uma cobra entre os dedos para ganhar destreza? É o tipo de causo que só o sertão guarda.
A música dele ficou muito tempo longe dos estúdios. Zé Côco foi descoberto por Téo Azevedo já perto dos 70 anos. Gravou só três discos: Brasil Puro, de 1980, Zé Côco do Riachão, de 1981, e Vôo das Garças, de 1987. Pouco? Foi o suficiente para o crítico José Ramos Tinhorão eleger Brasil Puro o melhor do ano na categoria autenticidade.
Reprodução / capa do LP "Zé Côco do Riachão" (Rodeio, 1981)
O jeito dele de tocar era raro. Zé Côco tocava solo e acompanhamento ao mesmo tempo. Uma equipe de TV alemã ficou tão impressionada que deu a ele o apelido que pegou: Beethoven do sertão.
A história também tem a parte que dói. Zé Côco sonhava ganhar dinheiro com a música para comprar uma fazenda. Morreu pobre, em 13 de setembro de 1998, em Montes Claros, aos 86 anos, depois de complicações de um derrame. Deixou mil CDs encaixotados na casa da filha, Luisa Soares.
Só que o som dele seguiu caminho. O Dicionário Cravo Albin cita entre os discípulos de Zé Côco nomes como Paulo Freire, Roberto Corrêa e Chico Lobo. Em 2003, faixas dele entraram no CD Violeiros do Brasil.
E a história dele ganhou também as telas. Em 2024, a professora Andrea Martins, da Unimontes, retomou a produção de um documentário sobre o violeiro. Em dezembro de 2025, a Revista Tempo noticiou que o filme, chamado Beethoven do Sertão e narrado por Jackson Antunes, tinha recebido patrocínio do BNB pela Lei Rouanet.
O legado que fica com a gente
Zé Côco não deixou fazenda. Deixou uma viola feita à mão, um jeito único de tocar e uma fila de violeiros que aprenderam com ele. Toda vez que alguém do Norte de Minas pega uma viola e ponteia uma moda de folia, o Riachão está ali dentro. E a gente tem todo o orgulho do mundo de dizer que o Beethoven do sertão nasceu aqui, com uma folia de reis passando na porta.
Foto de capa: Zé Côco do Riachão na porta de casa, com a viola enfeitada de fitas de folia. Foto: Divulgação / filme "Beethoven do Sertão" (Unimontes)
Fontes
- https://dicionariompb.com.br/artista/ze-coco-do-riachao/ (Dicionário Cravo Albin)
- https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq19099818.htm (Folha de S.Paulo, 19/09/1998)
- https://revistatempo.com.br/2025/12/02/ze-coco-do-riachao-documentario-tera-patrocinio-do-bnb/ (Revista Tempo, 02/12/2025)
- https://www.posgraduacao.unimontes.br/ppgl/2024/04/19/professora-da-unimontes-retoma-a-producao-do-filme-sobre-ze-coco-do-riachao/ (Unimontes, 19/04/2024)
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